Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

Lun, 06 Dic 21 Lectio Divina - Anno C

No início do Advento, um tempo privilegiado de preparação para o mistério do Natal, que mudou o destino do mundo porque Deus, ao encarnar-se, imergiu-se na humanidade e partilhou as suas alegrias e sofrimentos, encontramos o Mistério de Maria, a Imaculada.

A celebração eucarística da Solenidade abre colocando nos lábios da Virgem a exultação da Noiva que o profeta Isaías (61,10) canta com sotaque poético:

Exulto e regozijo-me com o Senhor,

A minha alma regozija-se no meu Deus,

Pois ele vestiu-me com as vestes da salvação,

Envolveu-me no manto da retidão,

como uma noiva enfeitada com joias".

A comunidade cristã reconhece-se plenamente realizada e antecipada em Maria e celebra alegremente a sua ação de graças ao Senhor porque nela, como afirma o Prefácio, o Pai marcou "o início da Igreja, a noiva de Cristo sem mancha nem ruga, resplandecente de beleza".

E de fato a vocação da pessoa humana encontra a sua plena realização nesta mulher simples e humilde, capaz, no entanto, de ser uma interlocutora de Deus sem medo ou hesitação. Isto foi possível por um puro dom da graça, sem dúvida, porque era apenas para ela que Deus queria num certo sentido recriar a condição inicial do Éden, tornando-a "nova Eva", como diz Santo Irineu.

O dom da concepção imaculada é todo orientado para Cristo, em vista da maternidade divina. Pio IX na Bula Ineffabilis Deus, que proclama o dogma (8 de Dezembro de 1854) afirma que por esta mesma razão a Virgem "foi preservada, por uma graça e privilégio especial de Deus Todo-Poderoso, em vista dos méritos de Jesus Cristo, o Salvador da raça humana, livre de toda a mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção". Isto confirma a fé secular da Igreja, pois desde o século VI que o Oriente bizantino celebra liturgicamente a "Santa Conceição" e a Mãe de Cristo é constantemente venerada pelos nossos irmãos ortodoxos sob o título de Panaghia, ou seja, Toda Santa.

Os textos propostos para a nossa reflexão são muito ricos e, mesmo na sua concisão, levam-nos através do mistério da salvação querida por Deus desde o início.

Com a passagem de Génesis 3, 9-15. 20 encontramo-nos perante a tragédia do pecado original, o início daquele drama de desconfiança e medo de Deus que faz parte da condição humana e do qual todos temos uma triste experiência; o Adão de então e de sempre se esconde, Eva justifica-se... Maria, por outro lado, com a abençoada "descendência" que é o seu Filho, confronta a antiga serpente e esmaga-a, criando também para nós as condições para uma relação amorosa com Deus.

O projeto das origens, ou melhor, que as precede, porque nos remete para "antes da criação do mundo" é-nos apresentado pela passagem da carta aos Efésios 1, 3-6. 11-12 como uma bênção recíproca do homem para Deus e de Deus para o homem, chamado desde o princípio à filiação e à glória em Cristo Jesus. A Santidade e a Imaculação, que para nós são objetivo final, para Maria são plenamente realizados desde o início, um dom por ela acolhido com um coração aberto ao amor e à esperança, uma herança já provada na terra.

Maria é a interlocutora de Deus, na sua humilde casa em Nazaré, onde o Jardim do Éden é recriado; com total liberdade de todos os ónus do pecado, a Virgem acolhe o mensageiro de Deus e o seu anúncio sem precedentes. A passagem de Lucas 1,26-38, que a Igreja meditou durante dois milénios, solicita-nos mais uma vez mais a abrir os nossos corações à esperança e à confiança.